CONFERÊNCIA
Promovida pela SPAE (Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia)
Coimbra, 5 de Junho de 2012 – conferência (resumo)
A arqueologia do ponto de vista do pensamento crítico contemporâneo: alguns tópicos
por
Vítor Oliveira Jorge
Professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; investigador do CEAUCP
Creio que a publicação, em 2004 (Londres, Routledge), do livro “Archaeology and Modernity”, pelo meu colega Julian Thomas, da Universidade de Manchester, marca uma importante ruptura com as reflexões anteriores, mesmo dos autores ditos “pós-processuais”, percebendo que a renovação da arqueologia e da teorização da sua prática tem de se compreender “de fora” da disciplina. A arqueologia é um produto da modernidade, e esta tem sido analisada e pensada por numerosos autores que não podemos ignorar, e que continuam a aparecer constantemente. Muitos desses autores não se apresentam propriamente como “filósofos, ou teóricos desta ou daquela área do saber, mas questionaram a própria maneira como a produção do saber costumava ser questionada/teorizada. Ou seja, pensar a arqueologia hoje é uma tarefa muitíssimo mais exigente do que há algumas décadas. Implica uma postura de inter e transdisciplinaridade radical, muito difícil de conseguir, porque obviamente se tem de partir dos problemas da arqueologia e, ao mesmo tempo, conseguir vê-los a partir de fora, como se não fôssemos arqueólogos. Exercício quase acrobático, porque o discurso arrasta-nos sempre para o senso comum vigente. É isso que se pode considerar uma postura crítica, absolutamente básica para se conectar a arqueologia com o conhecimento contemporâneo e para lhe permitir o diálogo com as grandes questões políticas, filosóficas, científicas que se nos colocam na era pós-moderna do capitalismo financeiro neoliberal.
Falta talvez fazer qualquer coisa como um livro chamado por exemplo “Arqueologia e Pós-Modernidade”, prolongando a obra de J. Thomas, e entendendo por pós-modernidade uma palavra convencional que designa o facto de, não se tendo cumprido muitos ideais da modernidade, estarmos numa época em que o ideário do mercado, do empreendedorismo, das sociedades de controlo extremamente subtil e invasor corta com esse próprio ideário da “primeira modernidade”. Sem conhecer (o que não significa subscrever, é óbvio) as reflexões de pensadores como, por exemplo, Jacques Derrida, Giorgio Agamben, ou Slavoj Zizek, entre imensos outros, é minha convicção de que não só não percebemos o mundo em que nos encontramos, como não entendemos por que razão a universidade continua a legitimar (e a legitimar-se) numa visão da história que é anacrónica, enganadora, diria mesmo perigosamente conservadora, e que, reflectida em arqueologia (ainda muito enfeudada à prática histórica) leva a uma situação de impasse entre as indústrias do património (que vendem às massas um passado domesticado), os trabalhos de pesquisa por projectos curtos (tipo mestrados/doutoramentos de Bolonha, etc) que em geral produzem mais do mesmo à pressa, ou o trabalho empresarial na sua maioria preso à mesma lógica de “curto-prazismo” própria do sistema em que estamos mergulhados. Mas a história não parou, nem muitos de nós, seres humanos, se recusaram a pensar para fora das fronteiras deste horizonte imperial que se pretende apresentar como natural, indesmentível, inequívoco, quiçá eterno. Sem cair na pressa das soluções rápidas, que se situam na mesma lógica e portanto se sujeitam à carnavalização do adversário, há que ousar pensar uma nova arqueologia para uma nova forma de comunidade que, por vias travessas talvez, é uma comunidade que há-de vir.
O pensamento crítico contemporâneo coloca os problemas radicais que são os que podem motivar uma arqueologia adulta, liberta da tutela da história narrativa, sequencial, teleológica, legitimadora de uma concepção do tempo banal e retrógrada, como já Walter Benjamin apontou.
SPAE
SOCIEDADE PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA
E ETNOLOGIA
Relatório de actividades de 2011
1. Edição, lançamento, e envio aos sócios e outras entidades do vol. 51, referente a 2011, da revista “Trabalhos de Antropologia e Etnologia”. 23 de Novembro de 2011, na FLUP.
2. Continuação da dinamização do blogue da SPAE, recentemente criado: http://sociedadeportuguesaantropologia.blogspot.com/ e no qual se vão incluindo diversas notícias relevantes para a SPAE, para a antropologia e para áreas do saber com ela conexas.
3. Realização, no Centro Unesco do Porto, em 9 de Abril de 2011, da Assembleia Geral anual para apresentação do relatório de actividades e de contas de 2010 e do parecer do CF.
4. Realização de uma conferência, aberta a todos os interessados, por ocasião da actividade mencionada em 3. Tratou-se da conferência da mestre Maria José Barbosa, doutoranda da FLUP, sobre: IMAGEM; REPRESENTAÇÃO E EMANCIPAÇÃO EM RANCIÈRE.
Realização de uma Assembleia Geral eleitoral dos corpos sociais da SPAE para o triénio 2011-2013, em 9 de Abril de 2011 (Centro Unesco do Porto). Foi eleita por unanimidade a lista A, a única que se apresentou. Ficam assim constituídos os corpos sociais:
Assembleia Geral
Susana Oliveira Jorge – Profa. da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Presidente
Mário Jorge Barroca- Prof. da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Secretário
Ana Bettencourt – Profa. da Universidade do Minho – Secretária
Direcção
Vítor Oliveira Jorge - Prof. aposentado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Presidente
Maria de Jesus Sanches - Profa. da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Vice-Presidente
António Manuel Silva – Técnico superior da Câmara Municipal do Porto- Secretário
Ana Leite da Cunha – Técnica superior do Ministério da Cultura, reformada - Tesoureira
Paula Mota Santos – Profa. da Universidade Fernando Pessoa, Porto - vogal
Margarida Santos Silva – Docente do ensino secundário - vogal
Leonor Sousa Pereira – Técnica superior do Ministério da Cultura - vogal
Conselho Fiscal
Sérgio Monteiro Rodrigues - Prof. da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Presidente
Sérgio Alexandre Gomes – Doutorando da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Secretário
Alexandra Ferreira Vieira – Doutoranda da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Secretária
5. Conferência de José Bragança de Miranda, da UNL, intitulada “Para uma crítica da noção de dispositivo.” Organização da FLUP, da AEFLUP e da SPAE. Apresentação do conferencista e moderação do debate a cargo de VOJ.
6. Realização de uma série de conferências, sobre problemas do pensamento contemporâneo, e aproveitando o magnífico espaço oferecido pelo Centro Unesco do Porto, graças à colaboração da Fundação Eng.º António de Almeida. Foi nesse projecto de conferências mais regulares que se integrou a já mencionada da Dra. Maria José Barbosa, e ainda estas três: da Doutora Maria João Cantinho, no dia 12 de Março de 2011, sobre “Walter Benjamin: Um filósofo a contrapelo da história” ; da Profa Doutora Eugénia Vilela, da Faculdade de Letras da UP, no dia 14 de Maio, sobre : “Corpos heterotópicos. Notas sobre a biopolítica e a deslocação clandestina”; e do Prof. da Universidade do Porto, Faculdade de Ciências, Doutor Orfeu Bertolami, no dia 8 de Outubro de 2011, sobre “O universo segundo a Física do séc. XXI.”
7. Participação de V.O.J. (este também representando o CEAUCP – Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto, a que pertence) e de vários outros membros da SPAE (alguns com comunicação, outros mesmo organizando sessões) no congresso internacional da SIEF (Société Internationale d’ Éthnologie et de Folklore) realizado na Universidade Nova de Lisboa, FCSH, de 17 a 21 de Abril de 2011. Tema geral do Congresso: “People Make Places : Ways of Feeling the World”.
Ver http://www.nomadit.co.uk/sief/sief2011/
8. Desenvolvimento de esforços no sentido da angariação de novos associados, dinamizando a participação efectiva nas actividades da associação. Este desiderato tem-se revelado difícil, dadas as condições do país.
9. Criação, no facebook, da página da SPAE: